Missão Apollo 11 (Aonde tudo começou) #1

A explosão de alegria de um milhão de pessoas acompanhou o foguete Saturno-5.

Um milhão de curiosos, 3.500 jornalistas e 400 convidados da NASA provocaram um furacão diferente na pacata costa da Flórida, em Brevard, perto do Cabo Canaveral, horas antes do lançamento da Apollo-11. As estradas ficaram engarrafadas por 300 mil carros, os hotéis alugavam quartos a 75 dolares e barracas foram vendidas certificados com os dizeres “Eu vi a Apollo-11 subir”. Enquanto a rádio tocava sem parar Fly me to the Moon, a massa humana brigava por uma xícara de café ou entrava em fila para reservar uma vaga do futuro Lunar Hilton Hotel. Todos passaram a noite em claro, olhando a distancia o Saturno-5. De repente, a confusão se transformou em silencio. Ouviu-se apenas um ruído dos foguetes. A nave desapareceu em uma cortina de fumaça e a multidão explodiu em gritos, aplausos e chapéus voando. Neil Amstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins se encontravam a caminho da Lua.

Lançamento do Saturno-5

Estes são os heróis do novo mundo

Para Neil Amstrong, Michael Collins e Edwin Aldrin, o início do lançamento da Apollo-11 foi o fim de seis meses de treinamento intenso, às vezes 12 horas por dia, frequentemente sete dias por semana. Amstrong e Aldrin, os dois primeiros homens na história a pisar no solo da Lua, sabiam melhor que ninguém que esse privilégio, com toda a sua atração e, ao mesmo tempo, com todos os seus riscos, poderia ter sido de outros astronautas, preparados com o mesmo cuidado dentro do programa Apollo. Este foi um dos pontos que eles ressaltaram antes do voo, quando escreveram sobre o que esperavam encontrar na Lua e como cumpririam a missão mais importante já destinada a uma expedição humana desde 1492.

Neil Amstrong (O comandante), Edwin “Buzz” Aldrin (o piloto do módulo) e Michael Colling (o homem da Apollo)

Reportagem com Neil Amstrong publicada pela revista Fatos e Fotos na edição 443 de 31 de Julho de 1969

“Ficaria muito chateado se as pessoas pensassem que eu não passo de apenas um simples piloto.”

-Como você se sente ao se tornar o primeiro homem a pisar na Lua?

R: Eu espero sinceramente que o mundo reconheça no feito um esforço coletivo. Não importa qual seja o primeiro individuo a realizar esta façanha. A minha escolha é uma casualidade, ou poderia ser o homem a escalado para o voo anterior ou para o próximo. Foi um jogo de cartas e nada mais.

-Mas quais são os seus sentimentos pessoais a respeito do voo?

R: Claro que estou emocionado, mas minha preocupação maior diz respeito às coisas mecanicas que terei de fazer durante a viagem. Não tenho tempo para pensar nos aspectos emocionais da missão, mas reconheço que eles existem e deles não poderei fugir. Lembro-me de que quando pilotava um avião comum, há alguns anos, sempre comentava baixinho: “Nossa senhora, não é que eu estou voando mesmo?!” Claro que ao chegar à Lua, direi mais ou menos a mesma coisa: “Nossa senhora, não é que eu cheguei?!

-Que tipo de treinamento para descer na Lua vocês estão fazendo?

R: Treinamos de 10 a 12 horas, de 5 a 6 dias por semana, em simuladores de voo no centro espacial de Cabo Kennedy. Praticamos tudo que faremos em órbita nas réplicas dos veículos controlados por computadores. Esses computadores apresentam situações de emergência e problemas aos quais reagimos como se estivéssemos em órbita de verdade.  E eles, os computadores, respondem como se fossem autênticas espaçonaves. Pela escotilha do simulador LM, por exemplo, vemos a lua como se estivéssemos prestes a descer em sua superfície. Quando apertamos determinados botões, o simulador se move e nós ficamos em outra posição em relação à Lua de mentira. Perfeito, não?

-O que você aprendeu dos últimos voos das outras Apollos e, especialmente, da Apollo-10?

R: Primeiro, estávamos preocupados com as comunicações vindas da Lua. depois, os primeiros voos tripulados da Terra à Lua, e vice-versa, passaram a ser nossa preocupação. Isto quer dizer que todos se completam. Aprendemos ainda que, numa eventualidade, podemos tripular a nave sozinhos. Nos voos das apollos 8 e 10, à comunicação foi melhor do que esperávamos, ou pelo menos melhor do que eu esperava. Isso nos dá uma certa tranquilidade. Apollo 10 nos deu confiança nas outras que ainda não haviam sido realizadas no espaço. Estamos mais confiantes agora porque acreditamos na eficiência de todos os sistemas testados naquela missão. Sempre me preocupei com os sistemas de propulsão em voo dessa natureza, mas descobri que o pessoal responsável por este setor é capaz de testá-los em terra e nos assegurar um perfeito do funcionamento na nave na hora da partida. Com relação ao sistema de comando, o negócio é bem diferente. Numa operação com computadores, é fácil ficar checar tudo em terra, mas não as questões óticas que encontraremos no espaço. Como simular a existência de estrelas e medi-las, e como estabelecer onde fica o horizonte? Tudo isso continua desconhecido. A teoria, ou a prática simulada, não resolve.

-Pelo visto, o que mais o preocupa são as coisas que terá de fazer pela primeira vez, não?

R: Nós sempre nos preocupamos com as coisas inéditas. Por isso, existem programas longos para cada tipo de missão. Num voo, estudamos uma coisa, no seguinte, a outra, e assim por diante. Temos um número limitado de novas manobras preparadas para nós, mas essas manobras devem ser decoradas na ponta da língua, pois são mais difíceis que as outras já testadas. Quando fazemos algo que testamos fazemos com total confiança, sem temer possíveis efeitos de última hora.

-Quando você soube que iria comandar a primeira descida do homem na Lua?

R: Três ou quarto dias antes de ser anunciada: 9 de janeiro, Deke Slayton, o chefe dos astronautas, me disse que o nosso grupo fora indicado para a missão Apollo-11 e eu acertei a sugestão.

-Como se sentiu ao receber o convite?

R: Fiquei muito contente, entusiasmado, como das outras vezes em que fui posto numa missão de voo qualquer. Todos os voos de alguma importância são entusiasmantes e este tem um sabor especial. Quando nos falaram da Apollo-11 ficamos torcendo para que a sua missão fosse descer na Lua. Hoje, temos a certeza de que lá desceremos. Mesmo que a Apollo-11 fosse apenas um teste a mais na viagem à Lua eu ficaria contentíssimo.

-Quando soube da notícia, você telefonou logo para a sua mulher?

R: Não.

-Esperou chegar em casa e comunicar-lhe o fato pessoalmente?

R: Exato.

-Qual foi a reação dela?

R: Ah, ficou contentíssima. Primeiro quis saber se eu também estava. Quando eu disse sim, ela sorriu.

-Ela vai a Cabo Kennedy assistir ao lançamento?

R: Acho que não.

-Se você não fosse astronauta, que profissão escolheria?

R: Gostaria de dar aulas ou então fazer qualquer coisa no campo de pesquisa independente, a fim de contribuir com algo de novo para a sociedade.

-Qual foi a sua maior experiencia durante os preparativos para a descida na Lua?

R: Foram os momentos em que senti que as nossas idéias, por menores que sejam, fazem parte do programa e demonstram os seus méritos como uma contribuição ao conhecimento humano.

-Ano passado, você quase morreu num veículo simulado do módulo lunar. Até que ponto este fato pode alterar os seus nervos?

R: Não tenho medo de nada. Se tivéssemos medo não apenas o programa espacial mas também o país inteiro teria consciência dessa tragédia.

-Aqueles voos simulados foram suspensos por causa de acidentes sucessivos e esta suspensão alterou os seus planos de treinamento. Até que ponto esta interrupção na sua experiencia pode afetar a missão Apollo-11?

R: Fiz 20 voos simulados e gostaria de ter feito o dobro. Se não conseguir dobrar esta quota até o dia do lançamento, creio que partirei com menos confiança em minha missão de pisar no solo lunar.

-Você teme algum problema na hora de deixar a superfície lunar num momento preciso para incorporar-se a nave-mãe?

R: Sim. Há muitas coisas a serem testadas. Não sabemos se poderemos ver as estrelas que nos guiaram durante o dia lunar. Os sinais das estrelas são o nosso sistema referencial, aquilo que nos assegurara a volta a cápsula na hora certa. Se não pudermos usar as estrelas, apelaremos para a gravidade lunar. Alinhar o sistema com a gravidade da terra é uma tarefa simples, realizada diversas vezes e com êxito, mas ainda não foi experimentada na lua. De qualquer forma, temos opções suficientes à nossa disposição. Saberemos escolher a melhor.

-Qual o ponto crítico do voo?

R: Algumas incertezas de manobra. Temos, pouca margem de combustível, bem menor do que gostaríamos de ter para realizar a descida. O ponto mais crítico será, tenho quase certeza, a passagem do controle automático para o manual quando chegarmos a 200 metros do local do pouso. Mas será crítico até o momento em que sentirmos o mecanismo respondendo satisfatoriamente as nossas necessidades. Transpondo este obstáculo, aí sim, começa a do combustível.

-Então a descida é mais perigosa do que a saída?

R:  A descida é mais complexa porque o sistema é mais complexo. Mas se alguma coisa de errado acontecer, a gente volta. Na volta, contudo, a gente tem menos alternativas. Como o seu mecanismo é muito simples, mesmo no caso de um incêndio parcial, teremos forças suficientes para atingir uma altura determinada, na qual o módulo de comando possa nos resgatar.

-O que você pensa de todos os perigos desse voo?

R: Nossa missão é procurar encontrar onde estão os perigos e torna-los menos perigosos. Seria idiota dizer que não nos preocupamos com os defeitos pois é isto o que fazemos a todo instante. Cada missão Apollo é uma tentativa de tornar a seguinte menos perigosa, mais produtiva e mais eficiente. O perigo, contudo, não nos mete medo.

-Na sua opinião, qual a parte mais importante no programa de voo espacial tripulado?

R: É o desenvolvimento das naves e de suas técnicas visando conquistar uma maior perfeição na exploração do espaço. Eu ficaria muito chateado se as pessoas pensassem que eu não passo de um simples piloto espacial. Não penso na pilotagem como uma profissão, e sim como uma forma de ser profissional, de fazer alguma coisa. Da mesma maneira que o microscópio é um objeto de pesquisa, a espaçonave é um objeto operacional com finalidades científicas. Nesses voos preliminares da Apollo, estamos aprendendo a melhor maneira de usarmos este objeto, esta ferramenta científica, na exploração do desconhecido. A investigação da Lua pelo homem é uma experiência vital e excitante que abre novos horizontes fascinantes para o futuro. E assim será, com as missões destinadas a levar um ser humano a Marte, a Júpiter e a muitos outros pontos ainda nebulosos do universo.


O poderoso Saturno-5, com 120 metros de altura e três mil toneladas de peso, vence a gravidade da Terra com um ruído ensurdecedor

“Agora é tempo de dar passos mais largos, tempo para um novo e grande empreendimento norte americano, tempo para esta nação exercer uma decisiva liderança na conquista do espaço que, de muitas formas, pode ser a chave do nosso futuro na Terra. Portanto, solicito ao congresso, independentemente dos aumentos já pedidos para as atividades espaciais, que forneça verbas necessárias para atingir a seguinte meta nacional: creio que esta nação deveria comprometer-se, antes do fim deste decênio, a enviar um homem à Lua, trazendo-o são e salvo de volta à Terra. Nenhum outro projeto espacial nesse período será mais excitante, e nenhum será tão difícil ou dispendioso de realizar.”

Quando o Presidente John F. Kennedy enviou esta mensagem ao Congresso dos EUA, no dia 25 de maio de 1961, fazia pouco mais de um mês que Yuri Gagarin tinha se tornado o primeiro cosmonauta, passando uma hora e 45 minutos em voo orbital em torno da Terra, a bordo da nave soviética Vostok-I. Vinte dias antes da mensagem presidencial, os EUA haviam realizado uma proeza menor, levando Alan Shepard dentro de uma nave Freedom-7, uma curva balística até 185 quilômetros de altitude, durante 15 minutos. Em comparação com o feito de Gagarin, o voo suborbital de Shepard era quase insignificativo. Mas foi a partir desse dia que a Lua começou a ficar mais perto.

Presidente John Kennedy discursando no Congresso no dia 25 de Maio de 1961

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Biro

Um autodidata apaixonado por Leonardo da Vinci, Boeing 737, Segunda guerra mundial, Carl Sagan e principalmente pela vida.

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