O Poderoso Chefão e a Divida de Gratidão

Vito Corleone. O Don. O Padrinho.

Um homem que fugiu de sua Itália quando criança para não pagar com a morte, a dívida de seu Pai. Chegou na America e fez dinheiro, fez amigos e a partir dali, começou a praticar o que seria sua principal moeda de troca, os FAVORES.

 

Neste exato momento, tento escrever meu texto fazendo mão de coxinha para expressar minha admiração pela Itália, pelas italianas pelo povo italiano e por ter trazido à América a Máfia, pois com ela veio a prostituição, os Cassinos e demais jogos ilegais, os agiotas e o tráfico de bebidas alcoólicas. Obrigado.

 

Don Corleone era um homem de respeito e de visão, conseguiu visualizar a 2ª Guerra Mundial se aproximando no início dos anos 30 e fez muita riqueza com isso, conseguiu ganhar temor e tremor de seus adversários e, principalmente, de seus amigos. Tinha seus contatos por toda a América, desde policiais, juízes, governadores e senadores, até cantores e cineastas, padeiros e coveiros, mães e viúvas. Seu círculo “profissional” era muito abrangente e por esse motivo – e apenas esse – Vito conseguiu poder e levantou seu império.

De 11 indicações, 3 categorias receberam o premio, Melhor Filme e Roteiro Adaptado e também de Melhor Ator para Marlon Brando, que não compareceu na entrega por protesto a favor das tribos indígenas da América.

O início do livro traz quase a mesma narrativa dos primeiros minutos do filme, em seguida cria uma curva para dar atenção à outros personagens e a partir deste ponto se distancia da adaptação de Coppola aos cinemas.

Percebi que, em uma segunda camada da leitura, o autor Mario Puzo ensina o leitor algo de extrema importância para a vida de qualquer um que pretende ter um convívio social: Agradecimento não é Divida. Ele explica isso em sua escrita simplesmente mostrando o oposto, dando sentido nos favores que o Padrinho fazia aos seus apadrinhados. Pois com isso, pessoas vinham ao seu encalço lhe pedindo, por exemplo, a morte de uma determinada pessoa, a libertação de um presidiário e chegavam também a pedir pequenas coisas, como um investimento em uma panificadora, ajuda na importação de alguma iguaria italiana ou alugueis atrasados devidamente pagos. Com isso, Vito recebia dessas pessoas o título de Padrinho, e em troca desses favores chegava em sua casa pães, leites, vinhos, discos de vinil autografados e certas quantias em dinheiro, representando a lealdade, o agradecimento e a proteção.

O famoso “uma mão lava a outra e as duas lavam os pés” funcionava muito bem para Vito. Assim sendo, sempre que ele precisava de qualquer favor, sabia de quem “cobrar uma dívida”. Mas, entretanto, todavia e porém, quando as coisas começam a apertar para o pai e o filho começa a assumir o cargo, durante seu aprendizado no negócio da família, o pequeno gafanhoto percebe que: Ao favorecer um, outro acaba sendo prejudicado e este mesmo vai ao encalço de Corleone, chamando-o de Padrinho e apresentando sua solicitação.

Assim, o ciclo sem fim dos favores tem início, e percebemos que a mesma mão que tira é a mão que dá. O dinheiro, aparece durante este processo, o importante é que, tanto os que o amam, quanto os que o odeiam, jamais devem saber o tamanho de sua influência.

 

A verdadeira guerra contra os Corleone se dá em um destes favores, quando uma família “rival” solicita ao Padrinho para que entre no mercado de entorpecentes com dinheiro e o poder dentro do governo. O “não” do Padrinho foi negligenciado até pelo seu próprio filho, que infelizmente deixou isso muito exposto durante as negociações e os Tattaglia, solicitantes do favor,  perceberam que o único jeito de avançarem com o apoio dos Corleone era se Sonny estivesse no comando. Sendo assim, planejaram a morte do pai e quando foi descoberto que a tentativa de assassinato não deu o resultado previsto e que Vito logo ficaria bom novamente, as decisões foram tomada para que a família perdesse o poder a qualquer custo. Mas aí é que deixamos de acompanhar o núcleo principal e participar da vida de outros personagens e compreender assim, o tamanho do império que pertence ao Padrinho.

Mike, Vito, Sonny e Fredo. Familia Corleone

Mario Puzo, enquanto escrevia sua obra, não recebeu autorização de usar a palavra Mafioso ou Mafia enquanto a história se passava dentro da América, tanto é que a única vez que é citada tal denominação, a narrativa se passa no outro lado do oceano, na Sicília. Por isso, o nome Família foi adotado ao escritor e assim procedeu em demais obras, sempre quando é enfatizado um certo apelo emocional de um grupo, seja ele os mocinho ou os caras legais.

No primeiro plano de toda obra é mostrado, acima de tudo, o quanto humanizado é um vilão, ao ponto de você começar a torcer para ele (até porque não tem nenhum herói na história inteira) e compreender tais atitudes tão repugnantes perante a sociedade. Mas, sabendo que tudo que está escrito conta sobre a vida dos bandidos e que eles, por sua vez, fazem o bem apenas para gerar algum lucro próprio através das dívidas geradas aos solicitantes, se conclui que nós não devemos deixar pesar a consciência por receber, de alguma maneira, um favor. AGRADECIMENTO NÃO É DÍVIDA, e se por algum motivo, você sentir vontade de retribuir a ajuda, que seja por RECIPROCIDADE e não por sanar uma pendência.

Uma amizade se constitui assim: Eu te ajudo simplesmente porque quero e não espero uma retribuição por isso. Não devemos a uma pessoa simplesmente por conta da ajuda recebida, mas se acabarmos respondendo a isso com um outro favor ou um presente é pelo simples motivo de gratidão, sem nenhum peso contrapondo na balança.

 

Espero ter ajudado social e psicologicamente em suas vidas e que possamos aprender sempre com a vida de outras pessoas, sejam elas reais ou fictícias.

 

“A vida é tão bonita”

Corleone, Vito.

 

Rafael Peregrino

Musica, filmes e livros me definem. Um violão, um café, um papel e uma caneta me descrevem. Mas quem eu amo pode sempre dizer mais de mim Do que eu mesmo