Dark e a Teoria do Livre Arbitrio

Bom, como começar escrever sobre essa série, Lançada em 2017, de origem alemã, produzida e distribuída por nossa querida e idolatrada Netflix?

Dark não tem nenhum ator fodastico e não é dirigido e roteirizado por nenhum deus do cinema mundial. Poderíamos dizer que ela não foi mais do que mais uma grande aposta que deu muito certo. Por que digo isso? Vamos lá:

A série não faz o estilo do selo “Original Netflix”. O ritmo dela é bem lento e não tem nenhuma cena de ação ao longo das quase 10 horas de conteúdo. Os personagens não são construídos nos primeiros episódios, muito pelo contrário, acaba a primeira temporada e você ainda não entende sobre a vida de cada personagem. Nomes e sobrenomes não são americanizadas, apesar de eu ter gostado dessa ideia, temos que admitir que é difícil guardar alguns nomes tradicionalmente europeus. Enfim, a Netflix viu Dark surgir nas mentes criativas, visionárias e lunáticas de Baran bo Odar e Jantje Friese e adotou a ideia.

 

Dark acompanha quatro famílias em uma cidade chamada Winden, os Kahnwald, os Nielsen, os Tiedemann e os Doppler. A série se passa em três épocas diferentes, 1953, 1986, 2019 e uma quarta época não apresentada, provavelmente 2052, se formos pela lógica de 33 anos nos intervalos de cada período. Cada ano mostra como a cidade cresceu desde suas casas e ruas, a construção da usina nuclear às preocupações de seus moradores por conta de Chernobyl. A música, a moda, os carros, a tecnologia e o estilo de vida são a grande placa de neon, indicando a época que o telespectador está presenciando, o design impecável retrata, sem falha, como é viver nas gerações de nossos pais e avós.

 

Para esse humilde ser, que vos escreve, Dark não pode merecer menos que 4,2/5 MotherFuckers. Alguns defeitos no roteiro e algumas decisões que me pareceram erradas à serem tomadas, me fizeram tirar, com muita dor no coração, os pontos vitais para a nota máxima.

Mas o que está em foco em toda a temporada é uma pergunta: O Livre Arbítrio existe?

ALERTA DE SPOILER DA PRIMEIRA TEMPORADA DE DARK

 

Livre Arbítrio nada mais é do que você poder tomar suas próprias decisões, seguindo aquilo que mais lhe atrai ou convém, sofrendo ou desfrutando das consequências de seus atos. Porém, se colocarmos na mesa o fato de que “Deus já sabe qual decisão tomaremos” ou de “Alguém já saber sobre o nosso futuro” ou se “O Destino já está escrito sobre nossas vidas”, ainda sim as nossas decisões podem ser consideradas “livres”? E você, sabendo o que aconteceu no seu passado, descobre um jeito de voltar no tempo e mudar esses fatos, percebendo assim que a sua atitude foi a responsável por todo o ocorrido, tentará novamente intervir?

Complicado, não?

Pois é…

Jonas Kahnwald, poderia ter percebido isso, quando entrou mais fundo na caverna pela primeira vez, ao ver uma relíquia, uma espécie de alça de apoio ou até mesmo uma maçaneta na forma de uma cobra comendo o próprio rabo. Nela estava amarrada uma corda vermelha que o levaria às bifurcações temporais da caverna, onde se pode viajar nos intervalos de tempos permitidos. A cobra simboliza um paradoxo, ela precisa comer para poder crescer e como se alimenta do próprio rabo nunca deixará de comer assim como nunca deixara de crescer. Uma simbologia mais profunda é de “o presente se alimentar do passado para que possa dar espaço ao futuro.” Mas como Jonas não conhece nada sobre paradoxo temporal, ele seguiu a linha vermelha procurando resposta na escuridão do desconhecido.

Jonas fazendo sua primeira viajem temporal, seguindo uma corda vermelha a partir de uma maçaneta, representando um paradoxo.

Temos o mais importante paradoxo quando Jonas descobre que Mikkel, o garoto que desapareceu em 2019, foi para o passado, em 1986 e que virá a ser seu pai, Michael. Ao tentar resgatar e leva-lo de volta á sua época, um homem misterioso o impede, explicando que se trazer Mikkel de volta, Jonas nunca existirá, neste ponto já dá indícios de que esse homem é o próprio Jonas de 2052.

A revelação da identidade deste homem misterioso é mostrada em outro paradoxo temporal, quando Jonas de 2019 é raptado por Noah, um “provável” vilão (falaremos dele mais tarde) que está seguindo uma ordem em sua agenda, representada simbolicamente por uma bíblia. Jonas é levado a um cativeiro, um quarto com cama, uma tv de 1986 e uma cadeira estranha com componentes elétricos e bobinas magnéticas. Do lado de fora aparece Jonas de 2052, se apresentando como tal e dizendo que vai acabar com esta falha: “Tudo que você está vivendo, eu já vivi… Até já tive essa conversa, mas estava do outro lado. Achamos que somos livres, mas não somos. Seguimos sempre o mesmo caminho. De novo e de novo. Não posso solta-lo, ou você não será quem eu sou hoje. Se mudar meu passado, também mudo o meu presente e então não conseguirei destruir esse buraco de uma vez por todas”. Temos então o último paradoxo temporal, pois aceitamos o fato de que Jonas irá pelo mesmo caminho até chegar 33 anos depois e falar com ele mesmo, só que do lado de fora do cativeiro. Vendo isso, no questionamos sobre o Livre Arbítrio, Jonas está tão interessado em fazer as coisas acontecerem de maneira diferente, que não se dá conta que está seguindo uma “linha”, ele quer acreditar que pode mudar o rumo da história, mas tudo é previsto quando é traçado em uma parede e organizado a ordem cronológica dos personagens com uma fita vermelha, a mesma cor usada dentro da caverna, para guia-lo em seu caminho… tudo isso está fazendo algum sentido pra vocês??

 

QUEM É NOAH?

Retrato falado do possível sequestrador de Mikkel Nielsen. Conhecido como Noah.

 

Noah, então, é o oposto de tudo isso, ele aceita o paradoxo e o promove, trabalha para que as coisas aconteçam como devem ser, conforme é organizado em sua bíblia, ele é apresentado aos personagens como um reverendo cristão e isso faz muito sentido, pois Jesus em sua época cumpriu TODAS as profecias sobre o Messias, filho de Davi, Salvador e Cristo Ressurreto. Tudo que havia sido escrito a seu respeito ele fez, isto para que pudesse ser registrado nos evangelhos “Ele fez isso para que se cumprisse a profecia…”. Jesus criou uma desordem no sistema político e religioso em seus dias na Terra e nós, sabendo sobre o passado, o presente e o futuro que consta na Bíblia nos sentimos com certa dificuldade em acreditar que é permitido o Livre Arbítrio até para o Filho de Deus.

Noah acredita que o caos é premeditado e não imprevisível, se tornando assim o próprio agente do caos, como acredita ser o Cristo, como ele mesmo diz: “Quem já olhou o inferno… não se livra mais dele. Ele se torna parte de você. E a ideia de Deus, de Jesus, o Salvador, torna-se uma esperança. Todos que conhecem a escuridão buscam a luz, mas Deus não existe! Não foi Deus que criou esse buraco entre nós. Deus não tem um plano. Não existe nenhum plano. Lá fora só existe o caos. Dor e caos!

Noah usa uma metáfora de que a cadeira, a primeira maquina da historia, é a arca do diluvio e ele é Noé, entendendo assim que esse não é o seu verdadeiro nome (Noah = Noé)

No penúltimo episódio é mostrado todos os personagens, em suas duas ou três idades apresentadas na série, menos Noah. É dele o último rosto que aparece, sem uma idade que antecede ou sucede ao que já vimos nas três épocas e como a série não adota o tom sobrenatural para dar imortalidade à ele, acredito que Noah sabe mais do que todo mundo a respeito das cavernas e seus distúrbios temporais e como não foi apresentado-o 33 anos mais novo, me parece que ele pode ser de 2085, em um futuro que não será alterado por ninguém, se depender dele.

Noah sequestra Jonas, seguindo uma ordem já anotada, mas não faz nenhum teste na cadeira com ele e nem o mata, como já fizeram com as outras crianças, o encarceramento é feito simplesmente para que se pudesse existir a conversa entre os dois Jonas. Seu depoimento nisso é que “O Jonas mais velho destruirá o buraco, mas ele não sabe que assim criará a possibilidade de sua criação. Um Paradoxo”.

H.G. Tannhaus de 1953 e 1986

33 anos de buscas incessantes sobre a existência do Livre Arbítrio e o desabafo de Jonas é feito à H.G. Tannhaus. Ele questiona o inventor de uma máquina que pode transportar as pessoas no tempo sobre não sermos capazes de agir por nós mesmos. Mesmo tomando decisões que possam interferir ou anular qualquer fato no futuro, só estamos participando para que esse fato realmente aconteça. Tão perdido quando Tannhaus estamos nós, terminando de assistir Dark e não entendendo do porquê do rapto e assassinato das crianças por Noah, nem sobre o incidente da usina e os segredos que a caverna esconde ou porque ovelhas e pássaros acabam sendo afetados quando há os distúrbios temporais,não aprendemos nada a respeito do Livro de Tannhaus nem da agenda de Noah e o motivo de esses itens caírem em certas mãos, deixamos de saber ainda mais sobre alguns personagens e como eles sabem da falha temporal e sobre a influência da usina nuclear nisso tudo e seus barris de produtos radioativos nem tão radioativos assim, já que eles são abertos por Claudia Tiedemann em 1986, enquanto ela é a nova diretora da usina. 33 anos depois, ela vira uma nômade que entrega a planta da máquina do tempo para Tannhaus em sua loja de relógios e solicitando a construção da mesma, isso em 1952. E se achávamos que não tinha como ficar mais complicado, Jonas da um salvo para outro lugar, sendo recebido com uma coronhada na cabeças e a frase “Bem vindo ao futuro”. 

Claudia Tiedemann, em 1953, 1986 e 2019

Enfim, falar sobre o Tempo demanda tempo e eu já arranquei muito dele, fazendo vocês lerem todo este texto sem sentido.Esperamos ansiosamente para que a segunda temporada de Dark venha e esclareça as questões que ficaram pendentes. E não são poucas.

Rafael Peregrino

Musica, filmes e livros me definem. Um violão, um café, um papel e uma caneta me descrevem. Mas quem eu amo pode sempre dizer mais de mim Do que eu mesmo